Afinal, devemos ou não devemos deixar as crianças rabiscarem as paredes da casa?

2-Jul-2018

Polêmica envolvendo paredes desenhadas pelos filhos da culinarista Bela Gil propõe um novo olhar sobre os rabiscos - e a ausência deles

 

Duas crianças aparecem num vídeo da culinarista Bela Gil escorregando em colchões. São os filhos da moça, Nino e Flor, cujo momento de lazer a alegra: afinal, quando criança, Gil também tinha esse costume. Bela filmou a brincadeira e postou em suas redes sociais. Logo, o que foi protagonista de um grande debate não foi a brincadeira em si, mas o fundo do vídeo, que mostrava as paredes da casa pintadas e rabiscadas com canetinhas de colorir. Teve gente que repudiou a permissividade da mãe, e teve quem apoiasse a atividade. Entre os limites e a expressão artística, qual é o significado dos rabiscos (e da ausência deles) nas paredes?

 

A atriz Hortênsia Labiak, mãe de Ariel, 10, delimitou em sua casa uma parede ao filho, onde ele pode fazer o que quiser (desde que a parede continue em pé, segundo ela). “Os amigos vem, desenham junto, ele cola adesivos, tira, pinta com tinta, giz, cola, lápis, faz experimentos, se diverte e se reconhece nisso. É pura expressão de sentimentos, identidade, confiança mútua e autonomia. Afinal, parede a gente lixa, pinta e está nova. Mas a criatividade, confiança e lembrança ficam para sempre”, comenta ela.

 (Hortênsia e o filho Ariel pintam as paredes até hoje.)

 

Por outro lado, o fotógrafo Bruno Zanardo alega que a filha, Alice, 5, nunca rabiscou as paredes e que não aceitaria que isso acontecesse. “Acho que é uma questão de disciplina. Uma diferenciação entre o que é dela (as bonecas dela são todas riscadas, maquiadas) e o que é coletivo. Além do respeito pelo que não é dela. Assim como eu respeito e incentivo, ela brinca da forma que quiser com os brinquedos, papéis, livros dela. Ela nunca fez isso [riscar as paredes] e nunca precisei repreender por ter feito”, pondera ele.

 

 (Ao invés de riscar as paredes, a pequena Alice rabisca as bonecas.)

 

Durante a primeira infância de Letícia, 8, filha da instablogger Renata Andersson, era difícil limitar a criatividade apenas na folha de papel. “Mas sempre buscávamos ensinar sobre a importância de manter o lar bem cuidado (ainda mais pelo fato não ser moradia própria). Uma alternativa que optamos foi desde sempre dispor de kit arte com papel ofício, lápis de cor, tinta e afins, e a liberdade de expor suas obras na geladeira. Era algo que ela sempre se orgulhava... quando fazia um desenho ela corria para colocar na porta da geladeira. Hoje com 8 anos ainda desenha e recebe desenhos das amigas. Temos uma pasta onde guardamos suas artes”, coloca

 

Desenvolvimento

 

O desenho é a base do desenvolvimento da criança, e é essa a atividade que irá anteceder a escrita e ser a forma de expressão dos pequenos. É o que aponta a psicóloga Thatyanny Fernandes. “É importante ressaltar que cada criança se desenvolve de um jeito diferente, cada criança tem seu ritmo e é importante respeitarmos isso. No entanto, a maioria das crianças consegue segurar um giz de cera e rabiscar um papel por volta dos 12 ou 13 meses. A partir daí, entre os 2 e os 5 anos de idade, os pequenos ficam cada vez mais interessados em expressar e representar e suas emoções por meio dos desenhos”, pontua.

 

Ainda segundo ela, quanto mais permitimos e estimulamos as crianças a realizarem seus desenhos e rabiscos, mais estamos contribuindo para o seu desenvolvimento ao nível cognitivo, motor e emocional. E a escolha das crianças pelas paredes não é aleatória. “Alguns estudos apontam que o desenho na parede tende a se tornar mais expressivo do que no papel em virtude da necessidade de uma combinação bem afinada entre a mão, o objeto utilizado (pincel, lápis etc.) e os gestos da criança ao desenhar. E a explicação para isso se dá por causa da posição vertical da parede, que faz com que o desenho se torne mais expressivo para a própria criança”, explica ela.

 

Expressão

 

A artista plástica Luciana Severo, que mantém o atelier de artes infantil Luciana Severo Kids, apoia a expressão infantil, embora avalie ser importante a imposição de limites. “Toda criança tem que ter o seu espaço no mundo para expressar suas aptidões, seus desejos e sua criatividade. Os pais devem apenas limitar este espaço. Muitos pais reservam um local da casa para que as crianças possam riscar e rabiscar seus desenhos de forma livre. Isso é educar, com responsabilidade, é dar limites e ao mesmo tempo despertar as crianças para as brincadeiras lúdicas e saudáveis. Nesse mundo cada dia mais tecnológico, nossas crianças passam tempo demasiado nos aparelhos eletrônicos e perdem parte de sua infância”, acrescenta a artista.

 

Severo adianta, porém, que são necessários alguns cuidados na hora dos pequenos rabiscarem as paredes. “O ideal é usar sempre tintas solúveis em água. E observar alguma reação alérgica nas crianças. Há muitos produtos nacionais e importados que são antialérgicos. Há inclusive receitas de tintas que podemos facilmente encontrar pelos canais de Internet, que são feitas artesanalmente e totalmente antialérgicas. Outra opção para muitos pais é pintar uma das paredes da casa com a tinta especial para giz. Eles podem riscar à vontade e basta passar um pano úmido para limpar a bagunça e começar tudo de novo”.

 

Compartilhar
Compartilhar
Compartilhar
Compartilhar
Compartilhar
Curtir
Please reload

Posts Em Destaque

Você sabe se seu filho está sofrendo estresse infantil?

13-Jul-2017

1/1
Please reload

Posts Recentes
Please reload

Arquivo
Please reload

Procurar por tags
Please reload

Siga
  • Facebook Basic Square
  • YouTube Social  Icon
RSS Feed

©Copyright 2017 Colégio Professor Anselmo. Todos os direitos reservados.